As doenças do foro mental, tais como esquizofrenia, doença bipolar, agitação psicomotora, perturbações comportamentais, tiques, gaguejar, soluços incontroláveis ou náusea são um facto social inegável. É devido ao cenário anteriormente descrito que os profissionais de saúde portugueses são muitas vezes confrontados com a urgência das situações, recorrendo ao que a ciência tem maior facilidade em facultar: a prescrição de neurolépticos ou antipsicóticos.
Mas, para além do apoio farmacológico, pode ser activado outro tipo de apoios, nomeadamente intervenções psicológicas e psico-sociais. No entanto, estes apoios são praticamente inexistentes no nosso país. Importa – como veremos mais à frente – não eliminar a sua capacidade de ajuda a despeito da sua escassez, na medida em que a sociedade tem capacidade para desenvolver muitas estratégias que, por si só, podem ter um efeito benéfico sobre estas pessoas em sofrimento psicótico.
Mas existe uma outra importante análise a fazer: os custos crescentes que os cuidados de saúde representam são eles mesmos uma ameaça ao modelo bio-médico vigente. Ou a sociedade aceita um agravamento dos custos – o que com as actuais restrições orçamentais (veja-se por exemplo a limitação das horas suplementares dos profissionais de saúde em vigor) não parece ser viável a breve trecho – ou teremos um agravamento da situação se não forem procuradas outras alternativas perante o cenário actual.
Por isso, não basta encontrar as deficiências do modelo actual; é necessário procurar soluções efectivas.
Os antipsicóticos (um grupo heterogéneo quanto à sua natureza química) têm um mecanismo de acção comum. Eles interferem a nível cerebral, bloqueando os receptores dopaminérgicos cerebrais D2. Outra gama de fármacos actuam sobre os receptores de outros neurotransmissores (noradrenalina, serotonina e acetilcolina).
Basicamente, a sua função pode ser resumida a três dimensões que são influenciadas com a toma destes medicamentos:
– sistema límbico: onde são afectadas as emoções, as autopercepções, com o corpo e o ambiente, a sexualidade. Este sistema está directamente relacionado com o Lobo Frontal, onde reside a vontade, a inteligência, o ego e a autoconsciência, a auto-imagem comportamental, etc..
– O controlo do sistema motor: por exemplo, induzindo movimentos repetitivos que a pessoa, sob o efeito dos medicamentos, não consegue controlar, e mesmo depois de ter sido descontinuado o seu uso, pode prosseguir na maior parte dos casos.
– O controlo do sistema hormonal: induzindo, por exemplo, as glândulas mamárias das mulheres sob o seu efeito, a excretarem leite, ou outros sintomas menos perceptíveis, pois não são tão visíveis por terceiros.
Desde logo (na sua fase inicial de utilização a partir de 1950) que se constatou que estes fármacos provocavam efeitos secundários graves, embora com eficácia terapêutica semelhante: sedação, efeitos extrapiramidais, efeitos anticolinérgicos, hipotensão ortostática, distonia, rigidez muscular, tremores, elevados níveis de prolactina e ganho de peso, disquinesia, disfunção sexual, disfrenia, quando o fármaco induz ele mesmo os sintomas que quer neutralizar, letargia, taquicardia, pesadelos nocturnos intensos, neutralização da memória de curto prazo, pancreatite.
Mas, mesmo assim, cerca de 30% dos pacientes esquizofrénicos não respondem aos antipsicóticos convencionais. Uma segunda geração de medicamentos antipsicóticos (a partir de 1970) foi desenvolvida procurando atenuar esses efeitos secundários, embora de eficácia semelhante ou até menor. Contudo, efeitos secundários como a sedação, hipotensão, taquicardia, ganho de peso e aumento da salivação, agranulocitose, desenvolvimento da diabetes, foram identificados entre alguns dos efeitos adversos mais importantes. De acordo com a literatura, ideia reforçada pelo Infarmed, ainda não há evidência de que os antipsicóticos atípicos sejam mais eficazes do que os compostos típicos. E, por outro lado, deve ter-se em conta que os novos fármacos, com uma experiência de uso muito inferior, não estão isentos de perigos (alguns deles só agora estão a ser identificados).
Recentemente, vários estudos têm vindo a revelar que o uso prolongado deste tipo de medicamentos provoca redução cerebral, alterações das estruturas cerebrais, sendo questionada a sua eficácia global. Para além disto, aspectos ambientais, tais como a mudança de temperatura, podem contribuir justamente para questionar ainda mais profundamente a sua eficácia.
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